Concurso sobre corrupção e fiscalização dos gastos públicos premia trabalho de Cerino
Mala perdida em aeroporto europeu pode provocar pânico, pelo temor de bomba. No Brasil de hoje, mala abandonada é um atrativo para corruptos, especialmente se ela estiver recheada de dinheiro. Numa alusão à crise ética que assola o País, o cartunista Cerino venceu o 5º Salão Nacional de Humor (Sobre Fiscalização dos Gastos Públicos), ontem, em seleção realizada no Hotel Carlton, em Brasília, e cujos 230 trabalhos inscritos serão apresentados a partir de hoje, em exposição no Pátio Brasil Shopping. Com o tema Há malas que vêm pro bem!, o evento teve a participação de cartunistas, chargistas e caricaturistas de todo o Brasil.
Em segundo lugar, foi premiado o trabalho do paulista Custódio (José Custódio Rocha Filho) e em terceiro, o do publicitário mineiro Maurício “Leite” da Silva, da Mais Propaganda. Entre os 230 trabalhos de artistas brasileiros, o Salão trouxe um desenho da Polônia. “Os interessados tiveram um período de 20 dias para se inscrever e mandar, pelo correio, seus trabalhos”, informou José Alves de Sena, diretor da União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (Unacon), realizadora do evento. Os trabalhos foram expostos ontem ao júri formado por 23 pessoas, entre elas cartunistas, jornalistas e artistas locais.
Depois de observar os desenhos, eles julgaram o traço e o senso de humor dos trabalhos, baseados na temática da corrupção. “Recebemos trabalhos que criticam o nepotismo, os políticos, a corrupção nas igrejas, no futebol e no governo”, disse José Sena. O resultado foi divulgado ontem de manhã, no Hotel Carlton. Pego de surpresa, o vencedor Marcos André Cerino, de Brasília, mais conhecido por seu sobrenome, disse que é uma honra levar o primeiro lugar e os R$ 5 mil para casa. “Participo de salões de humor em todo o Brasil.
Em Brasília, não é o meu primeiro prêmio, mas é a primeira vez que ganho o primeiro lugar”, comemorou Cerino. Cartunista e chargista desde 1983, Cerino começou sua carreira no Jornal de Brasília. “Hoje tenho meu próprio site e faço charges e cartoons para jornais independentes e associações”, contou. Sentindo-se realizado, Cerino disse que sua profissão é a melhor forma de demonstrar sua indignação com a situação do País. “Por meio do humor crítico faço um protesto pessoal. Tento alertar a população, que muitas vezes não tem consciência de que está sendo lesada”.
O segundo lugar levou para casa R$ 3 mil e o terceiro R$ 2 mil. Durante a seleção, cartunistas da cidade falaram sobre a importância do evento. “É uma oportunidade muito boa para os artistas da área. Há trabalhos de todos os níveis e de muita qualidade”, afirmou o artista plástico brasiliense Gougon. Para ele, as questões plásticas e estéticas casaram bem com o tema da corrupção. O jornalista Guido Heleno também elogiou os desenhos. “O humor gráfico tem por objetivo estabelecer uma comunicação com o público. Acho que os trabalhos aqui expostos conseguiram alcançar esse alvo”, disse. Guido ressaltou que é fascinante o poder que as charges, as caricaturas, os cartoons e as tiras de humor têm, de alcançar a todas as idades. “Todos entendem a informação, seja a pessoa criança, adulto, idoso, pobre ou rica”.
De acordo com o chargista e cartunista Rock Lane, assuntos polêmicos muitas vezes são esclarecidos pelo desenho e o humor. “O referendo contra a proibição de armas é um exemplo. Às vezes, a população não se dá conta dos benefícios e malefícios do sim e do não, que podem ser esclarecidos e informados por uma charge ou um cartoon”, conclui. Durante a exposição dos trabalhos no Pátio Brasil Shopping, de hoje até o dia 23, haverá um júri popular para escolher os melhores trabalhos.
O público poderá escolher seu desenho predileto e votar. No mesmo ambiente, será montada uma mostra paralela com os trabalhos do cartunista Jaguar, criador do Pasquim, para homenageá-lo. O artista escolhido pelo voto popular receberá um prêmio no valor de R$ 1 mil. Depois da exposição, a Unacon produzirá catálogos para realizar mostras em universidades de todo o País. “Mostramos que alguém está tentando fazer um humor de qualidade sobre os gastos públicos”, afirmou José Alves. A Unacon foi criada, em 1988, com o objetivo de representar uma das carreiras de servidores públicos federais do Ministério da Fazenda: Carreira Finanças e Controle, atualmente da Controladoria-Geral da União da Presidência da República. Esses servidores são responsáveis pelo controle e a fiscalização dos gastos do Poder Executivo Federal.
JORNAL DE BRASÍLIA - 2005
quarta-feira, 26 de maio de 2010
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